Sem contagem regressiva



Só nós dois e a festa foi silenciosa... A noite se foi, veio a madrugada e as horas passando devagar como se elas fizessem um complô pra gente aproveitar cada segundo que passamos longe um do outro.

Quase nove meses que você está aqui, mas a saudade ainda não foi aniquilada. É só você ir para outro cômodo da casa e já fico a te querer perto de mim. A festa na rua parecia ser grande, mas pelo visto fomos os últimos a dormir.

Este foi o segundo ano novo que comemoramos juntos... mas algo de novo fez dele diferente. Seria o fato de estarmos casados? Ou por que eu terei você depois, depois e depois?

Ano passado, mal comemoramos o ano novo e assim que você partiu, ele envelheceu. O quarto vazio e nossos corpos cheios de vontade de se tocarem de novo.  Demorou mais uns meses até ter você de volta e desta vez foi pra valer.  

Poder te abraçar, te beijar sem olhar para o relógio como se tempo fosse nos destruir... Ah, como é bom ter você aqui, amor. Nossa relação sem prazo de validade... O privilégio de te ter todos os dias... O ano a começar sem o frenesi da contagem regressiva.

A vontade agora é que o tempo demore a passar e que eu possa aproveitar mais do que alguém poderia em toda uma vida.

Kitsune

O amor queimando dentro




[Em memória àqueles dias de outono em 2008, em que, pra evitar a loucura, de casa eu saía (ensurdecida ao som de YUI), mas você não saía do meu pensamento...]

O amor queimando dentro, na vontade doida de sair desembestado pra te dizer que te esquecer nem querendo. Tá difícil esconder essa saudade pirata de um monte coisa que só existe no quadro colorido que pintei de nós dois em minha mente. O sangue correndo quente e o sentimento percorrendo as veias ao inverso do peito à cabeça. I can’t say, mas você sabe e eu também sei que já está na cara que eu tô na tua né, cara?

* * *

A música é pra você, meu bem... e não deixa pra lá... vê se lê a letra também, tá?

Eu te amo, doidinho do meu “cora” [s2]!

Kitsune


Nem a dor me fazia esquecer a falta de ti

ilustração: Chen Shu Fen


Lembro-me de quando a gente se despedia ao final de uma madrugada inteira de conversa pelo MSN e eu já começava o dia morta de vontade de ti e do rebuliço de sentimentos que surgiam em mim. A ansiedade pelo final do dia era tanta e a tristeza de não ter você aqui era tamanha, que eu afundava as horas em melodias tristes só para chorar um pouquinho, vendo a saudade se tornar líquida e se esvair. Naquele ano, eu quase não dormi (deve ser por isso que o sono todo tá vindo agora). Eu ficava na cama, ouvindo repetidamente “Tsuki”( e outras do gênero), pensando em nós dois e desejando que tudo fosse diferente e o meu mundo mudasse naquela hora. Ah, eu roí tanto tantas unhas, meu querido... até o sangue sair, a dor vir... chorei muita saudade e a melodia dessa música também (você sabe que eu sou chorona mesmo)... mesmo doendo por dentro, até no pensamento. É estranho, mas era bom demais sentir... só pra me dar conta de que nem a dor me fazia esquecer a falta de ti.

Esta música que ouvi e chorei pensando em nós dois, agora é sua também.


Kitsune

Birrenta

Foto: Jez Page


Tem dias que acordo chata de galocha e saio acumulando todos os adjetivos ruins que uma mulher em seus dias medíocres pode amontoar. Se não fico calada, digo bobagens. Se não insisto, desisto. Se não torço a cara, faço beicinho. Se não me dá o que quero, reclamo. Se me dá, recuso. Se pega na minha mão, não cedo. Se não pega, desgosto. Se se aproxima, me afasto. Se não me abraça, choro. Fico mimada, abusada, enjoada, malcriada... Sei que digo inverdades, mas não é intencional. É esse meu modo temperamental que às vezes insiste em permanecer ligado. Mas é só você sufocar essa menina insolente contra o teu peito, que a mulher vem à tona e reconhece que birrenta eu sou, mas contigo, gaúcho, tomo jeito.

A ausência do amor, nos torna vil. Então, agarra bem agarradinho a minha mão, viu?

Kitsune

Só para me trazer de volta


"O verdadeiro amor é aquele que permanece sempre, 
se a ele damos tudo ou se lhe recusamos tudo."
(Johann Goethe)


Estava insuportável. Até a voz procurei evitar. Ouvir a mim mesma causou-me irritação. Quando lanço um olhar crítico sobre mim, quase sempre sou muito cruel. E da não aceitação chego quase ao ódio. Ontem eu não estava feliz comigo mesma. Falei coisas feias. Reclamei. Torturei a mim mesma com maus pensamentos repetidamente. E ferindo a mim mesma, magoei sem querer a quem amo.

Do diálogo ao monólogo. Principalmente frases terminadas com ponto de interrogação vieram da boca dele. Não quis atingi-lo e aprisionei as palavras para que elas não o ferissem. Mas o silêncio é uma faca de dois gumes. O que pode ser bom para um lado, pode ser terrível para o outro. Às vezes esqueço que me calar deixou de ser uma opção. O silêncio numa situação como esta nunca vem sozinho. Com ele, submetemos o outro a uma série de privações. O contato é a mais elementar.  Em alguns momentos (nos mais difíceis), esqueço que o meu silêncio quebra a conexão com a outra parte de mim: ele.

Infelizmente, há dias em que não estamos nem para nós mesmos. E sem querer nos afastamos daquilo que somos, do que queremos e do que amamos. É em dias como esses que o amor é a salvação. Nem sempre é uma crise interpessoal que fragiliza uma relação. Um conflito pessoal pode ser muito mais devastador, pois nos impede de sermos equilibrados e sensatos. O poder destrutivo do ego pode transformar uma simples fagulha numa imensa fogueira. E assim acabamos queimando promessas que fazemos a nós mesmos, modelos de comportamentos que juramos seguir. O que deveríamos ser e não conseguimos.

Uma intransigência aqui, outra ali e pouco a pouco, matamos a compreensão e a compaixão que devemos ter com os outros, e principalmente conosco. Nos isolamos, cortamos todos os fios de comunicação, quebramos as lâmpadas e ficamos no escuro. Não satisfeitos com algo que nem mesmo nós sabemos ao certo o que é, nos trancamos num quarto vazio e esperamos que alguém venha nos resgatar. Então, contraditoriamente, quando esse alguém aparece, o mandamos embora. Se diz algo, pedimos que nada fale. Se continua a insistir nos irritamos. Pedimos para que não nos toque, para que não faça perguntas, para nos deixar em paz. E se esse alguém desiste e nos dá as costas, nosso mundo desaba.

Muitas vezes digo o que não quero e o que realmente não sinto. A minha impaciência e mau humor assumem o comando e falam por mim. Eu sou tão tola às vezes, mas tenho a sorte de ter um grande homem ao meu lado. Um homem que não me abandona, nem mesmo quando eu já não estou mais comigo. Quando perco a fé em mim, ele está lá segurando a minha mão, mostrando que me aceita mesmo quando eu não sou capaz disso. E que não importam quantas portas trancadas ele tenha que derrubar e quão escuro seja o lugar. Ele sempre me encontra, me abraça e me toma nem que seja contra mim mesma, só para me trazer de volta.

Kitsune

Quase não sinto os pés

"O amor é um sonho que chega para o pouco ser que se é."
(Fernando Pessoa)


Não são raros os momentos em que durante o dia quase não sinto os pés. É um sonho, a nossa vida. Um sonho tão incrível que às vezes tenho a impressão de que não estou aqui. De que tudo é irreal. Não te contei, mas na madrugada passada tive um pesadelo. Os pesadelos parecem mais concretos e os são quando estou dormindo e eles resolvem aparecer.

Quando estou lá, na outra realidade e você não, dói tanto o que vejo. É a solidão. Se não te sinto como uma parte minha, sofro tanto... As imagens vazias de mim são como punhais que atingem meu coração. Até acordo chorando, evitando teus olhos para que não vejas a vermelhidão e os olhos marejados de lágrimas contidas e das que foram furtadas do rosto. Rolei para teu lado e você não estava ali.

Levantei-me e te encontrei sentado no sofá da sala como se estivesse me esperando. Estava. Ao teu lado sentei e te abracei. Toquei tua pele buscando apagar as memórias da ausência tua que sofri em meu mau sono. Os toques levaram aos beijos. Os beijos trouxeram mais carícias. E seu corpo quente me acordou outra vez só para provar que não estamos sonhando.

Eu te amo, L.

Kitsune



Nada é o que parece...


Há aparências de dureza que ocultam
tesouros de sensibilidade e de afecto.
(Júlio Dinis)


Hoje, a caminho da Universidade, pensei em como a minha vida parece monótona. Eu acordo todos os dias e faço sempre as mesmas coisas. As pessoas que têm contato comigo devem pensar que eu nada aproveito da vida. É, parece mesmo que sim. Sem amigos. Estou sempre calada, séria e sozinha.
Pensando nisso, conti os lábios, mas meus olhos riram por mim. Para onde eu olhava? O lugar não era aqui. Eu via você. E eu ria, ria, ria tanto dentro de mim. É, realmente parece, mas é só isso.
Eu acordo todos os dias, as coisas são as mesmas, mas eu não sou mais a mesma pessoa. Eu nada aproveito da vida, da vida que a maioria das pessoas gosta de viver. Eu vivo outra vida. Essa vida eu vivo com você. Realmente não tenho amigos, tenho apenas um e vale mais do que todos que eu poderia ter. Qualquer um que está fora do meu mundo me verá calada, séria e sozinha, porque nunca saberá que estou sempre em festa, rindo e me divertindo com você.
Loucura? É, parece, mas só parece. E quem vive atrelado às aparências, jamais conseguirá ver o que está realmente a sua volta, muito menos o que há dentro de si. Eu te amo, amor.

Kitsune