Só para me trazer de volta


"O verdadeiro amor é aquele que permanece sempre, 
se a ele damos tudo ou se lhe recusamos tudo."
(Johann Goethe)


Estava insuportável. Até a voz procurei evitar. Ouvir a mim mesma causou-me irritação. Quando lanço um olhar crítico sobre mim, quase sempre sou muito cruel. E da não aceitação chego quase ao ódio. Ontem eu não estava feliz comigo mesma. Falei coisas feias. Reclamei. Torturei a mim mesma com maus pensamentos repetidamente. E ferindo a mim mesma, magoei sem querer a quem amo.

Do diálogo ao monólogo. Principalmente frases terminadas com ponto de interrogação vieram da boca dele. Não quis atingi-lo e aprisionei as palavras para que elas não o ferissem. Mas o silêncio é uma faca de dois gumes. O que pode ser bom para um lado, pode ser terrível para o outro. Às vezes esqueço que me calar deixou de ser uma opção. O silêncio numa situação como esta nunca vem sozinho. Com ele, submetemos o outro a uma série de privações. O contato é a mais elementar.  Em alguns momentos (nos mais difíceis), esqueço que o meu silêncio quebra a conexão com a outra parte de mim: ele.

Infelizmente, há dias em que não estamos nem para nós mesmos. E sem querer nos afastamos daquilo que somos, do que queremos e do que amamos. É em dias como esses que o amor é a salvação. Nem sempre é uma crise interpessoal que fragiliza uma relação. Um conflito pessoal pode ser muito mais devastador, pois nos impede de sermos equilibrados e sensatos. O poder destrutivo do ego pode transformar uma simples fagulha numa imensa fogueira. E assim acabamos queimando promessas que fazemos a nós mesmos, modelos de comportamentos que juramos seguir. O que deveríamos ser e não conseguimos.

Uma intransigência aqui, outra ali e pouco a pouco, matamos a compreensão e a compaixão que devemos ter com os outros, e principalmente conosco. Nos isolamos, cortamos todos os fios de comunicação, quebramos as lâmpadas e ficamos no escuro. Não satisfeitos com algo que nem mesmo nós sabemos ao certo o que é, nos trancamos num quarto vazio e esperamos que alguém venha nos resgatar. Então, contraditoriamente, quando esse alguém aparece, o mandamos embora. Se diz algo, pedimos que nada fale. Se continua a insistir nos irritamos. Pedimos para que não nos toque, para que não faça perguntas, para nos deixar em paz. E se esse alguém desiste e nos dá as costas, nosso mundo desaba.

Muitas vezes digo o que não quero e o que realmente não sinto. A minha impaciência e mau humor assumem o comando e falam por mim. Eu sou tão tola às vezes, mas tenho a sorte de ter um grande homem ao meu lado. Um homem que não me abandona, nem mesmo quando eu já não estou mais comigo. Quando perco a fé em mim, ele está lá segurando a minha mão, mostrando que me aceita mesmo quando eu não sou capaz disso. E que não importam quantas portas trancadas ele tenha que derrubar e quão escuro seja o lugar. Ele sempre me encontra, me abraça e me toma nem que seja contra mim mesma, só para me trazer de volta.

Kitsune

Nenhum comentário:

Postar um comentário

コメントをありがとう! Obrigada pelo comentário!